Haicai Yogabrasil
 

Acima de tudo
encanta mais o colibri
pela sua ausência.

              Ricardo A.Arnt

Casualmente, um colibri entrou em nossa área de serviço e ficou um bocado de tempo esvoaçando por lá, nervosíssimo, antes de reencontrar sua liberdade através da trama da rede de proteção e ganhar novamente os céus. Se não chegássemos naquele momento, talvez tivesse ido parar no estômago de um dos nossos filhos peludos... Mas o importante disso tudo é o seguinte: enquanto ele esteve ali eu pude fazer algo que muito poucos conseguiram, que é observar um colibri de perto e sob vários ângulos e ainda por cima sob a influência de um forte stress, coitado! Disso resultou o quê? A saturação da imagem. E com ela vem o quê? Sua banalização, sua desmistificação, seu esvaziamento de conteúdo. Um colibri por 5 minutos dentro de minha área de serviço perde interesse, fica sem graça.

 Calvino nos fala em  "Seis Propostas Para o Novo Milênio" do poder encantatório de certas palavras que criam imagens indefinidas em nossa mente como, por exemplo, "noite", "vago", "infinito". Relembrando agora dois escritores fantásticos, HP Lovecraft e Tolkien, vemos em "O Estranho Caso de Charles Dexter Gordon" e em "O Senhor dos Anéis", respectivamente, o abuso das indefinições na narrativa para criar um clima de suspense quase opressivo
.
A metáfora do colibri, como um ser evanescente, que surge do nada e desaparece em seguida, quase como se fosse uma estrela cadente terrena, se amplia para tudo aquilo (pessoas, seres ou coisas) que é esperado, mitificado e idealizado em substituição à nossa incapacidade de visualização completa (e conseqüente definição). Então o que acontece é que a imagem escrachada perde em poesia, em leveza, em significado: a veladura, o reflexo, a imagem através da vidraça embaçada ganham em mistério, envolvem-se numa aura mística, são plurissignificativas e estimulam a imaginação. Não é à toa que os filmes de terror modernos, pródigos em jatos de sangue e exposição de vísceras explícitas provoquem risos das platéias adolescentes enquanto "Nosferatu" apavorasse multidões: é que o colibri encanta mais por sua ausência.

Sabia que não seria um haicai, mas a imagem é interessante, não é mesmo? Quem consegue observar por mais que alguns segundos um colibri, pois se, com seu nervoso bater de asas logo se afasta?
Mas a metáfora se amplia para todo e qq objeto raro ou pessoa que admiramos à distância...

 

Ricardo A.Arnt / Porto Alegre
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