Haibun do Curari Grande
Verdes Veredas da
Várzea
Anibal Beça
Haibun
é a descrição de uma viagem ilustrada. Esta ilustração é feita com
haicais ou senryus. Este haibun fala de uma visita de Anibal Beça
a uma velha fazenda.

Alheia
ao banzeiro
pousada na vitória-régia
a jaçanã come.
Saí
sozinho no motorzinho de rabeta do pontão de Educandos. As águas do
Rio Negro respingando no meu corpo, amenizando o sol do meio-dia. A direção
programada: ir rever a nossa velha fazenda na várzea do Curari Grande,
onde meu pai plantava juta e criava algum gado de leite, galinhas de
terreiro, meia dúzia de cabras e uma pocilga que abrigava uns tantos
porcos.
Quebrando
o silêncio
o esturro chega à várzea:
Casal de guaribas.
Hoje, quase
abandonada, sofrendo o fenômeno da Terra-caída, lambida e levada pela
fúria do rio Solimões. A cada ano que passa, perde-se alguns hectares
de terra. O ciclo das águas, como sempre, o termômetro dessa paisagem.
Na baixa das águas, a terra pródiga para se plantar culturas variadas
e de rápida colheita; a piracema, a desova das tartarugas nos
taboleiros das praias: fartura no tapiri do caboclo.
Na cheia, a sezão, o peixe escasso, a sucuri assustando no assoalho da
palafita, cardumes de poraquês impedem que curumins nadem
despreocupados; as lavadeiras, sempre atentas com a presença sorrateira
de jacarés-açus.
Noites de
vigília e de muitos causos: a filha da comadre Coló que o boto levou
pra Manaus e até hoje não se sabe do seu paradeiro; as aparições da
velha Honorata, com seus olhos focando que nem lanterna; as pegadas do
Mapinguari juntinhas à
capela de São Pedro. "O barro secou, e tá lá pra quem quiser
comprovar: baita pesão, visse?"
Depois de duas horas, passando pelo Encontro das Águas, pela ilha de
Marapatá, (onde Macunaima e não Macunaíma - deixou sua vergonha e só
depois, já velho, voltou para apanhá-la) diviso as primeiras
copas dos bacurizeiros e castanheiras. Na ponta do Varre-Vento, a velha
sumaumeira resiste.
Dizem que quanto mais velhos ficamos, mais antigas lembranças nos freqüentam.
Podemos até esquecer um lápis que se acabou de usar preso na orelha,
mas as recordações da infância, pulam claras, coloridas, um filme em
que somos os próprios astros, coadjuvantes e diretores.
Velha
escrivaninha -
Palavras não mais se cruzam
nos caminhos do pai.
Pois bem, foi assim, dessa maneira, a minha viagem. Um final de semana
somente: 3 dias. Gratificante por rever velhos amigos, afilhados, e
poder registrar coisas do aqui e agora e coisas que me voltaram em
impressões nítidas, com cheiros, sons e claridade.
O
encontro com a casa e seu entorno...
Vapor
de mormaço -
pequenos olhos d'água
minam da pele úmida.
...
A jia no canto
onde ficava a moringa -
casinha do sítio.
...
Rã na cumeeira -
chuva encharcando a campina
e a casa de sapê.
...
Colher de pau
Solitária na parede -
Onde os doces da mãe?
...
Panela de barro -
Temperado com carinho
o feijão da infância.
...
Velha escrivaninha -
Palavras não mais se cruzam
nos caminhos do pai.
...
Caneta
fonte -
Na antiga caligrafia
o azul desbotado.
...
Regador de flandre -
entre uma ixória e outra
o banho moleque.
...
Púcaro do pote -
Da concha da mão é cúmplice
na travessa preguiça.
...
No topo do pau,
protegida pelas vespas -
Orquídea amarela.
...
Pluma de pássaro
pousa suave no pátio -
Nasce um cabelo branco.
Os
sons e as coisas da floresta...
Canta
sem parar
o sabiá laranjeira -
Há fêmea por perto.
...
Rápido e rasteiro
risca verde faísca:
Pequeno calango.
...
Sol na vereda -
O ventre inchado em rodilha
jibóia a jibóia.
...
Ah, camaleão!
Mesmo mudando de cor
não viste a jibóia.
...
Quebrando o silêncio
o esturro chega à várzea:
Casal de guaribas.
...
O Solimões se encrespa ,
barcos procuram a beira -
Vento Geral.
...
No calmo aningal
o espelho se arrepia:
Onças bebem água.
...
Sede de verão -
O mormaço seca o orvalho
nas folhas de tajá.
...
Alheia ao banzeiro
pousada na vitória-régia
a jaçanã come.
...
Folhas abafadas:
desperta o uirapuru
a manhã da selva
Anibal Beça
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