Haicai Yogabrasil
 


Haikai : uma experiência não verbal
Cláudio Daniel
09.02.93- * Texto Publicado na Revista Internacional de Poesia - DIMENSÃO.Uberaba, nº 27, 1998. Editor: Guido Bilharinho.

Para quem acha que haikai é um mero 5-7-5...  segue aí um texto que  acho imprescindível para os "iniciados", "reiniciados", ou "deletados". 
Lau Siqueira


O haikai, como todas as artes zen - a cerimônia do chá, os arranjos florais, as técnicas marciais - não é uma experiência verbal. Ele existe apesar das palavras. O alfabeto de ideograma (kanji), ao contrário do ocidental, não registra idéias/sons (presentes no silabário), mas imagens. A escrita é icônica, arte para o olho e o espírito, assim como
os hieróglifos egípcios e os pictogramas sumérios. Os haikais japoneses,  
cuja origem mais remota é o canto, faziam parte de diários de viagem (nikki), num diálogo prosa/poesia, ou eram desenhados em um quadro (zenga). O haikai, pela caligrafia, fazia parte da paisagem, junto às montanhas, nuvens e lagos. Não se tratava de uma legenda explicativa, mas de uma colagem. O poema fazia parte de um todo plástico. Arte transverbal,  intersemiótica, no jargão acadêmico ocidental.Poesia-pintura.

No Brasil, infelizmente, o haikai foi, e é praticado, por poetas parnasianos, como Guilherme de Almeida, Afrânio Peixoto e outros, menos dotados, da geração de 45, que o reduziram à condição de microsoneto, com título, métrica, rimas e uma ordenação lógico-gramatical cartesiana.

Do haikai tradicional, só conservaram a casca - a forma do terceto de 5-7-5 sílabas e o signo da estação do ano, o kigo, encantados com a nova forma fixa. Ou seja, o haikai foi limitado a ser texto , e, o que é pior, do século XIX, com paisagens kitsch e purismo verbal. Nada mais estranho, aliás, ao gênio da língua japonesa, em que conforme o estudioso R.H. Blyth, "não só o sujeito, o predicado e o objeto eram, até certo grau, indistinguíveis, e a pontuação inexistente, mas até o perfil das palavras era borrado" (in kaiku).

Nessa língua originalíssima, em que não há artigos nem plural, também não havia a rima. Em compensação, os haikais de Bashô, Issa, Buson, Shiki, são riquíssimos em assonâncias, aliterações, anagramas, trocadilhos e outros recursos encontrados na poesia de vanguarda deste século.

A intuição se aliou à engenharia poética nessa aventura
espiritual e estética que é o haikai - tão simples e tão complexa quanto a música dos tambores taiko. Ao contrário do tom formal e solene de muitos diluidores brasileiros, predomina o haikai clássico a linguagem coloquial, o humor, a irreverência típica dos mestres zen. As imagens nunca são banais, mas, insólitas, raras:

chuva de primavera
a águia escorre do teto
pelo ninho de vespas

(Bashô), nas traduções límpidas de Leminski.

Essa singularidade não se encontra nos fáceis (e falsos) florilégios dos órfãos do párnaso-beletrismo, que buscam no haikai um refúgio para sua mediocridade - e também a possibilidade de uma incipiente indústria cultural: a indústria do fácil. Que, obviamente, é incapaz de sutilezas como esta:

templo de suma
ouvi a flauta não soprada
debaixo das árvores

(Bashô)

Neste poema, o assunto é o silêncio, o vazio, assim como no sumiê, onde o espaço em branco da tela é tão importante quanto o traço do pincel. Esta valorização da elipse será retomada no ocidente por Mallarmé, em Un Coup Dés, poema capital da modernidade. A concentração verbal do haikai, numa economia de recursos que consegue o máximo efeito estético com o mínimo de recursos, também é cara a autores de vanguarda, como Osvald de Andrade e Cummings.. Apesar das incompreensões dos diluidores e do hiato entre a nossa cultura e a do Japão do século XVII, o haikai pode ser incorporado/digerido no fazer poético atual exatamente pelas semelhanças com as tendências estéticas contemporâneas, e, em especial, a poesia concreta, a poesia visual e as experiências com novas mídias, como a holografia e o vídeo, que também se preocupam em criar uma arte concisa, supraverbal, com uma lógica sincrônica, e não diacrônica.

Paulo Leminski, Pedro Xisto e Haroldo de Campos inauguraram uma prática criativa, inovadora, do haikai possível de ser feito entre nós, na época atual: o haikai intersemiótico, transverbal. Haitropikai.

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